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Adesão clínica passo a passo – parte 1

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4–5 minutos

Para se obter uma boa adesão clínica passo a passo, é necessário seguir à risca uma série de etapas, cada qual com sua função específica.

Assim, vamos apresentar e fundamentar, de forma tão concisa quanto possível, os fundamentos para a aplicação clínica dos sistemas adesivos.

Esta discussão está mantida em nível conceitual. Ou seja, concentra-se no “como fazer” e “por que fazer”.

Profilaxia

Antes de qualquer procedimento restaurador, tanto o dente a ser restaurado quanto os dentes adjacentes são limpos pela profilaxia, ou seja, ficando livres de película adquirida, biofilme e cálculo dental.

Caso contrário, pode ocorrer a contaminação durante o procedimento adesivo e restaurador, o que afeta a sua qualidade e longevidade.

Isolamento do campo operatório

Os procedimentos adesivos são realizados com controle adequado da contaminação do campo operatório por saliva, sangue e umidade.

Assim, o primeiro passo para estabelecer interações adesivas bem‑sucedidas é fazer um isolamento eficiente, seja relativo ou absoluto.

Condicionamento ácido

O ácido fosfórico, em concentração que varia entre 30 e 40%, prepara a superfície do esmalte e da dentina para receber o sistema adesivo.

Para condicionar o esmalte adequadamente, o ideal é o ácido permanecer por 15 a 30 segundos sobre este.

Na dentina, entretanto, o tempo ideal de atuação do ácido é de no máximo 15 segundos.

Assim, quando a cavidade envolve tanto o esmalte como a dentina, o condicionamento sempre começa pelo esmalte.

Depois, passa-se à dentina no momento em que o esmalte já está devidamente recoberto pelo ácido.

Transcorrido o tempo de condicionamento, lava-se a cavidade por 15 a 30 segundos, com o auxílio de um spray de de ar/água.

Faz-se essa etapa com muito cuidado para assegurar a remoção de todo o ácido e de qualquer resíduo gerado pelo condicionamento.

A seguir, os excessos de umidade são cuidadosamente removidos, para que os componentes do sistema adesivo não sejam diluídos.

O motivo é que, durante o estabelecimento das interações adesivas, a água é um contaminante.

Adesão clínica em esmalte: podemos usar jatos de ar?

Em cavidades ou preparos restritos ao esmalte, comuns em situações como fechamento de diastemas e facetas diretas e indiretas, remove-se a umidade por meio de jatos de ar.

Entretanto, essa tática frequentemente resulta em uma superfície branca‑opaca nas zonas em que houve contato entre o esmalte e o ácido, embora a ausência de tal aspecto não signifique que o condicionamento não foi eficiente.

Adesão clínica em dentina: os jatos de ar são problema?

Na dentina, devido à sua estrutura orgânica, o uso de jatos de ar é totalmente contraindicado, uma vez que promove alterações comprometendo a efetividade da adesão.

Assim, em cavidades com esmalte e dentina, é ideal que os excessos de umidade sejam removidos pela associação de jatos de ar no esmalte e bolinhas de algodão na dentina, pois isto mantem a umidade dentinária.

Ainda, é importante estender o ácido cerca de 2 mm além das margens da cavidade.

Assim, ao final do procedimento clínico, basta polir as zonas de esmalte já sobrecondicionadas, porque a remoção de estrutura mineral decorrente do condicionamento é insignificante.

Além disso, não tem repercussão clínica a longo prazo.

Condicionamento ácido no esmalte e dentina: a mesma função?

A maioria dos sistemas adesivos envolve a aplicação simultânea do ácido no esmalte e na dentina.

Esta técnica conhecida como condicionamento ácido total ou condicionamento e lavagem, que vem do inglês “etch and rinse“.

Mesmo assim, as funções e os efeitos do condicionamento são totalmente distintos de um tecido para outro.

No esmalte, um tecido altamente mineralizado, o condicionamento aumenta a energia livre de superfície; por conseguinte, isto resulta no aumento do molhamento do sistema adesivo ao substrato.

Além disso, a desmineralização superficial do esmalte cria micro retenções que, desta forma, aumentam a área de contato.

Assim, há condições favoráveis para o embricamento mecânico do agente adesivo.

Na dentina, por outro lado, a aplicação do ácido tem como função principal a remoção da lama dentinária — uma camada superficial formada por detritos gerados durante o preparo cavitário.

A remoção da lama dentinária é acompanhada da dissolução mineral superficial da dentina peri e intertubular e da exposição de fibras colágenas, além de resultar em um aumento da embocadura dos túbulos, que permite o afloramento do fluido dentinário.

Com isso, a superfície dentinária pós‑condicionamento apresenta‑se bem úmida e com considerável teor orgânico — características opostas às do esmalte pós‑condicionamento.

Isto faz com que ela tenha baixa energia de superfície e represente um grande desafio ao estabelecimento de interações adesivas bem‑sucedidas.

Dentina: use bolinhas de algodão

Para contornar as dificuldades impostas pela estrutura orgânica da dentina, deve‑se, primeiramente, entender por que ela não é seca com jatos de ar, mas sim com bolinhas de algodão ou papel absorvente.

Com a remoção da lama dentinária e a desmineralização da dentina superficial, há exposição de um emaranhado de fibras colágenas, que contam com a umidade para manter sua configuração espacial, permitindo a infiltração subsequente do adesivo.

Quando a dentina é seca com jatos de ar, após o condicionamento, a rede colágena perde a sustentação da água e colapsa, impedindo a penetração do adesivo.

Veja mais sobre a obra Odontologia Restauradora

3 comentários em “Adesão clínica passo a passo – parte 1

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