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Dores musculares miofasciais são tendinopatias?

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Curiosidade: será que as dores musculares miofasciais são tendinopatias?

Atenção: o diagnóstico e o tratamento das DTMs (Disfunções Temporomandibulares) passam por uma revisão histórica.

Por décadas, o termo “dor miofascial” domina a literatura, mas novas evidências sugerem que estamos diante de uma interpretação incompleta.

Nesse sentido, um trabalho recente propõe que a dor muscular mastigatória é, na maior parte dos casos, uma tendinopatia (ou entesopatia).

Esta mudança não é apenas acadêmica; ela redefine a etiopatogenia, o exame clínico e as estratégias de reabilitação para o paciente com dor orofacial crônica.

A Crise do Conceito de “Dor Miofascial”

A nomenclatura “dor miofascial” implica que a origem da dor reside no ventre muscular ou na fáscia que o envolve. Contudo, a prática clínica e estudos de palpação mostram uma realidade diferente.

A Falha na Palpação Tradicional

Ao examinar pacientes com DTM, a dor é raramente eliciada no centro do músculo. Estudos indicam que a palpação no corpo do masseter é positiva em apenas 9% dos casos.

Em contrapartida, a dor é bem relatada nas inserções tendíneas (enteses), como no arco zigomático e no ângulo da mandíbula.

Transição para a Medicina Baseada em Evidências

O termo “miofascial” não possui uma base fisiopatológica robusta no sistema estomatognático.

Ao adotar o modelo de tendinopatia, a Odontologia se alinha à Ortopedia moderna, tratando o sistema mastigatório com o mesmo rigor científico aplicado aos tendões de Aquiles ou do manguito rotador.

Etiopatogenia: O Papel Devastador da Isometria

A tendinopatia é diferente de uma inflamação aguda (tendinite). Então, trata-se de um processo de degradação tecidual causado por uma falha adaptativa ao estresse mecânico crônico.

Bruxismo de Apertamento vs. Ranger

Assim, nesse trabalho, o bruxismo isométrico (apertamento ou clenching) e o bracing mandibular (tencionar os músculos sem contato dentário) são os principais gatilhos.

Desta forma, diferente do ranger dinâmico, a contração isométrica prolongada gera uma carga de compressão e tração constante que os tendões não conseguem dissipar.

Então, o resultado disso é o colapso da microestrutura de colágeno.

O Ciclo da Hipóxia e Degeneração

Os tendões são tecidos hipovasculares. A carga mecânica excessiva e contínua interrompe a perfusão sanguínea local, gerando um estado de hipóxia.

Sem oxigênio e nutrientes, os tenócitos entram em apoptose (morte celular) e a matriz extracelular é substituída por um colágeno tipo III desorganizado e frágil, resultando em um tendão espessado, mas mecanicamente ineficiente.

Neurobiologia da Dor: Bioquímica e Sensibilização

A dor na tendinopatia mastigatória não é apenas um sinal de alerta; é o resultado de mudanças neuroquímicas profundas no tecido tendíneo e no sistema nervoso central.

Neoinervação e Mediadores Bioquímicos

Em tendões doentes, ocorre um crescimento desenfreado de novos vasos sanguíneos e nervos nociceptivos para dentro do corpo do tendão (onde normalmente não deveriam estar).

Assim, o artigo cita a presença elevada de mediadores como a Substância P e o CGRP (Peptídeo Relacionado ao Gene da Calcitonina).

E o que eles fazem? Bem, a Substância P atua como um potente vasodilatador e pró-inflamatório, enquanto o CGRP reduz drasticamente o limiar de dor, criando um estado de hiperalgesia local.

Sensibilização Central e Dor Referida

A entrada constante de sinais nociceptivos provenientes das enteses sobrecarregadas atinge o subnúcleo caudal do trigêmeo.

Com o tempo, isso gera uma sensibilização central, onde o cérebro passa a processar estímulos normais como dolorosos.

Assim, isso explica por que a dor tendínea muitas vezes “irradia” para os dentes, ouvidos e região temporal, dificultando o diagnóstico se o clínico não souber identificar a origem primária e não secundária dessa dor.

Diagnóstico Diferencial: Mialgia vs. Tendinopatia

Diferenciar a dor puramente muscular da dor tendínea é o primeiro passo para um tratamento eficaz. Há pistas claras para essa distinção clínica.

Localização Anatômica Precisa: dores musculares miofasciais são tendinopatias?

  • Mialgia: A dor tende a ser mais difusa e localizada no ventre muscular. É menos comum em quadros crônicos de DTM.
  • Tendinopatia: A dor é focal e profunda, localizada exatamente nas inserções ósseas.  No Masseter: Palpação positiva na origem (arco zigomático) e inserção (ângulo mandibular).
  • No Temporal: Palpação positiva na inserção (processo coronóide), muitas vezes acessada via intraoral.

Resposta à Função: dores musculares miofasciais são tendinopatiais?

A dor da tendinopatia é estritamente dependente da carga. Ela aumenta imediatamente durante a mastigação de alimentos duros ou episódios de apertamento e diminui significativamente quando a mandíbula está em repouso absoluto.

Se a dor for constante e independente da função, outros diagnósticos devem ser considerados.

Se as Dores Musculares Miofasciais são Tendinopatias, quais as Estratégias de Manejo?

O tratamento da tendinopatia mastigatória exige uma mudança de foco: do relaxamento muscular para a saúde tecidual do tendão.

Educação e Controle do Bracing

A intervenção mais importante é a conscientização comportamental. O paciente deve ser treinado para identificar e interromper o bracing e o apertamento durante o dia.

A regra de ouro é: “Dentes afastados, lábios selados e língua no palato”. Sem remover a sobrecarga isométrica, nenhuma outra terapia terá sucesso a longo prazo.

Reabilitação Ativa: Carregamento Progressivo

Inspirado na fisioterapia esportiva, esse trabalho sugere que o tendão precisa de carga para se recuperar, mas tem que ser na medida correta.

O carregamento progressivo (exercícios isométricos e excêntricos controlados) estimula a mecanotransdução, sinalizando aos tenócitos para produzirem novo colágeno e reorganizarem a matriz.

O repouso total é prejudicial, pois leva à atrofia e enfraquecimento ainda maior do tendão.

Dispositivos Interoclusais (Placas)

As placas oclusais continuam sendo ferramentas valiosas, mas seu papel deve ser entendido como um dispositivo de gestão de carga noturna.

Elas ajudam a redistribuir as forças e reduzir a intensidade do apertamento isométrico durante o sono, protegendo as enteses enquanto o tecido tenta se remodelar.

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